Mercado de fertilizantes sob pressão: conflitos globais e El Niño desafiam agricultura
O mercado global de fertilizantes enfrenta um período de intensa turbulência, impulsionado por uma combinação de fatores geopolíticos e climáticos. Dois grandes conflitos internacionais, envolvendo Rússia e Ucrânia, e as tensões entre Irã e Estados Unidos no Estreito de Ormuz, somados aos severos efeitos do fenômeno climático El Niño, estão criando um cenário de escassez de matérias-primas essenciais. Essa conjuntura eleva significativamente os custos de produção agrícola, conforme destacado por Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil, em entrevista ao programa “É NEGÓCIO” da CNN Brasil.
A complexidade da situação atual difere de crises anteriores, onde a alta dos insumos era compensada pela valorização dos grãos. Atualmente, os estoques mundiais de grãos estão elevados, impedindo que seus preços acompanhem o aumento dos custos de produção, resultando em uma equação financeira desfavorável para os produtores rurais em todo o mundo.
Conflitos geopolíticos e o fornecimento de insumos
A instabilidade geopolítica tem um impacto direto e profundo na cadeia de suprimentos de fertilizantes. Rússia e Ucrânia são historicamente grandes fornecedores de fosfato, potássio e nitrogênio, componentes cruciais para a agricultura global. A continuidade do conflito na região afeta diretamente a disponibilidade e o fluxo desses insumos vitais.
Paralelamente, o Oriente Médio, responsável por aproximadamente 35% da produção global de nitrogênio, enfrenta tensões crescentes no Estreito de Ormuz. Este cenário compromete a disponibilidade de enxofre, uma matéria-prima fundamental para a fabricação de fertilizantes fosfatados, como o MAP (Fosfato Monoamônico). O preço do enxofre, por exemplo, registrou um aumento de 130% desde o início do conflito na região, exigindo entre 400 e 450 quilos do mineral para cada tonelada de MAP produzida. A relação de troca para os agricultores, conhecida como barter ratio, dobrou, exigindo agora cerca de 70 sacas de milho para adquirir uma tonelada de MAP, em comparação com as 30 a 35 sacas necessárias anteriormente.
Disputa por matérias-primas e a concorrência industrial
Além dos desafios geopolíticos, o mercado de fertilizantes enfrenta uma nova e crescente concorrência por matérias-primas. A indústria de energia, impulsionada pela demanda por baterias para carros elétricos e eletrodomésticos, também requer enxofre e ácido fosfórico. Essa disputa direta por recursos escassos coloca o agronegócio em desvantagem, uma vez que a demanda de outros setores cresce a um ritmo muito superior ao da agricultura, intensificando a escassez e o desequilíbrio no setor de insumos.
Diante deste cenário complexo, empresas como a Yara têm adotado estratégias de diversificação. A busca por novas origens de matérias-primas e a ampliação da produção em fábricas localizadas fora das zonas de conflito são medidas essenciais para mitigar os impactos. Essa abordagem visa garantir uma maior resiliência na cadeia de suprimentos, reduzindo a vulnerabilidade a choques regionais e globais.
El Niño, clima e o futuro da agricultura sustentável
O fenômeno climático El Niño emerge como um desafio adicional, com especialistas alertando para sua potencial severidade nas últimas décadas. Os impactos climáticos são uma realidade inegável na agricultura, e a mudança climática é reconhecida como um fator permanente no cenário global. A resolução da crise climática está intrinsecamente ligada à agricultura, e o Brasil, em particular, possui uma posição privilegiada para avançar simultaneamente em ambas as frentes.
O país tem a capacidade de conciliar a produção de alimentos para o mundo com a adoção de práticas sustentáveis. Iniciativas inovadoras, como o lançamento da linha Yara Climate Choice, que oferece fertilizantes produzidos com 100% de energia renovável, e a produção de amônia renovável a partir de biometano de resíduos da indústria sucroalcooleira em Cubatão, demonstram esse potencial. A empresa também se destaca por possuir uma das maiores fábricas de produção de hidrogênio verde na Europa, reforçando seu compromisso com a sustentabilidade.
Desafios dos produtores rurais e a busca por apoio
As preocupações dos agricultores brasileiros giram em torno de três eixos principais: a mudança climática, o acesso a crédito e a carência de incentivos adequados. O sistema alimentar global depende de uma fina camada de solo, e os produtores rurais são os guardiões desse recurso vital. No entanto, eles frequentemente não recebem compensação ou reconhecimento por adotar práticas corretas de manejo do solo.
A falta de suporte governamental e financeiro é uma questão crítica. Em contraste com outras potências agrícolas mundiais, onde os produtores recebem diversos tipos de apoio – seja por meio de crédito facilitado, garantias de rentabilidade ou fundos de investimento –, o Brasil se destaca por produzir sem subsídios significativos. A demanda por maior apoio e incentivos, em níveis comparáveis aos oferecidos em outros países, é uma reivindicação constante do setor para garantir a sustentabilidade e a competitividade da agricultura nacional.
Fonte: cnnbrasil.com.br
