Despreparo na comunicação médica: 90% dos profissionais não sabem dar más notícias, aponta estudo
Receber uma má notícia é sempre um momento delicado, especialmente quando se trata de questões de saúde. A forma como essa informação é transmitida por profissionais da área pode impactar profundamente o paciente e seus familiares. Contudo, uma pesquisa recente revela um cenário preocupante: a grande maioria dos médicos no Brasil não se sente preparada para essa tarefa essencial.
O estudo, que analisou o perfil de milhares de candidatos a programas de residência médica, aponta que nove em cada dez profissionais não possuem o preparo adequado para comunicar diagnósticos ou prognósticos desfavoráveis. Além disso, uma parcela significativa nunca recebeu qualquer tipo de treinamento formal sobre o tema durante sua formação universitária, evidenciando uma lacuna crítica no ensino médico.
O desafio da comunicação de más notícias na medicina
A pesquisa, publicada na revista científica Bioética, foi realizada com 2.418 médicos que buscavam uma vaga de residência na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os resultados são alarmantes: 90% dos participantes admitiram não se sentir aptos a transmitir más notícias. Mais ainda, 40% dos entrevistados revelaram nunca ter tido qualquer tipo de treinamento para essa habilidade crucial durante a faculdade.
Este cenário sublinha a necessidade urgente de integrar a comunicação de notícias difíceis como um componente fundamental da formação médica. A ausência de preparo não afeta apenas a qualidade do atendimento, mas também a relação de confiança entre médico e paciente, um pilar essencial para o processo de tratamento e acolhimento.
Metodologia e o protocolo SPIKES
O levantamento foi conduzido por meio de um questionário aplicado a quase quatro mil candidatos à residência da Unifesp, em novembro de 2016. Para a análise, os pesquisadores consideraram perfis sociodemográficos, experiências anteriores e percepções éticas relacionadas à comunicação com pacientes. O estudo utilizou como referência o protocolo SPIKES, um roteiro estruturado em seis etapas (preparação, percepção, convite, conhecimento, emoções e estratégia) que visa guiar os médicos na transmissão de informações complexas.
Apesar de 65% dos médicos conhecerem o protocolo SPIKES, a etapa que envolve o manejo das emoções dos pacientes e familiares foi identificada como a mais desafiadora. Muitos profissionais relatam insegurança em demonstrar empatia e reagir às emoções alheias, temendo que isso possa ser interpretado como fragilidade ou perda de controle, o que dificulta a comunicação eficaz.
Perfis profissionais e dilemas éticos
A pesquisa também revelou diferenças no preparo emocional entre as especialidades médicas. Profissionais das áreas cirúrgicas, por exemplo, demonstraram um perfil mais pragmático e menor preparo para lidar com o aspecto emocional da comunicação. Em contraste, os especialistas clínicos apresentaram menor resistência em participar de equipes multidisciplinares, o que pode facilitar uma abordagem mais humanizada.
Um ponto de reflexão ética surgiu quando quase todos os médicos entrevistados afirmaram que, se estivessem na posição de pacientes, gostariam de saber a verdade sobre seu estado de saúde. Essa contradição destaca a importância de alinhar a prática profissional com os valores pessoais de transparência e acolhimento, mesmo diante de notícias difíceis.
Impactos no sistema de saúde e a distanásia
A falha na comunicação entre médicos e pacientes pode ter consequências graves, incluindo a distanásia – o prolongamento artificial e desnecessário do sofrimento do paciente. Além do impacto humano, essa deficiência gera custos significativos para o sistema de saúde, como o Sistema Único de Saúde (SUS).
A comunicação ineficaz pode resultar em ocupação prolongada de leitos, inclusive em unidades de terapia intensiva (UTI), por pacientes crônicos que poderiam ter um plano de cuidados mais adequado se houvesse uma conversa clara e empática com a família. Essa situação não só aumenta os gastos hospitalares, mas também gera um desgaste emocional imenso para todos os envolvidos, conforme apontado por especialistas da área.
Caminhos para um acolhimento mais eficaz
Diante desse cenário, o estudo enfatiza a necessidade de implementar estratégias didáticas eficazes na formação médica. O objetivo é capacitar os profissionais para que adquiram segurança ao lidar com a comunicação de emoções, tanto as suas quanto as dos pacientes e familiares. A abordagem multidisciplinar, que envolve diferentes especialidades e profissionais de saúde, também é apontada como um caminho essencial para oferecer um acolhimento mais completo e humanizado.
Embora uma má notícia nunca se torne boa, a forma como ela é transmitida pode amenizar o impacto e ajudar o paciente a enfrentar sua condição com mais dignidade e suporte. O investimento em treinamento e em uma cultura de comunicação empática é fundamental para transformar a experiência de pacientes e otimizar o funcionamento do sistema de saúde como um todo.
Fonte: metropoles.com
