Finanças & Economia

Importações disparam 85% após fim da taxa de produtos de baixo valor e acendem alerta no varejo

A extinção da cobrança sobre remessas internacionais de baixo valor resultou em um crescimento expressivo das importações no Brasil. Dados recentes da Receita Federal revelam um aumento de 85% no volume de produtos que ingressaram no país por meio do programa Remessa Conforme em apenas dois meses. Essa elevação acende um sinal de alerta para o setor varejista nacional, que já começa a sentir os efeitos da intensificação da concorrência por preços.

A mudança na política tributária, que visava simplificar o processo para compras de até US$ 50, tem gerado um cenário de maior competitividade para as empresas brasileiras. Um relatório do Citi, divulgado pelo Valor Econômico, aponta que o avanço das importações pode pressionar significativamente as ações de varejistas de capital aberto no país, repetindo padrões de mercado observados em períodos anteriores de vantagens tributárias para plataformas estrangeiras.

Novas regras tributárias impulsionam as importações e o comércio internacional

A Medida Provisória nº 1.357, de 2026, foi o marco para a extinção da taxa de 20% que incidia sobre encomendas internacionais com valor de até US$ 50. Essa alteração, que entrou em vigor em 13 de maio, teve sua validade prorrogada pelo Congresso Nacional até setembro, consolidando um novo panorama para o comércio eletrônico transfronteiriço. Para compras que variam entre US$ 50 e US$ 3.000, a alíquota de 60% permanece, mas com uma dedução fixa de US$ 30 sobre o montante do imposto devido.

Essa desoneração para produtos de menor valor, popularmente conhecida como o fim da “taxa das blusinhas”, buscou simplificar a entrada de mercadorias e estimular o consumo via plataformas digitais internacionais. Contudo, o impacto imediato foi uma aceleração sem precedentes no fluxo de produtos estrangeiros para o mercado brasileiro, alterando a dinâmica de consumo e a competitividade do setor.

Aceleração do volume de importações no país

A Receita Federal registrou a rápida expansão do volume de importações sob o Remessa Conforme. Até abril, o valor acumulado de produtos importados pelo programa totalizava R$ 1,4 bilhão. Com a entrada em vigor das novas regras em maio, esse montante saltou para R$ 1,9 bilhão. O crescimento se manteve robusto, atingindo R$ 2,6 bilhões ao final de junho, o que representa uma alta de 36% em relação ao mês anterior.

Esses números demonstram a agilidade com que o mercado reagiu às mudanças tributárias, com consumidores e plataformas estrangeiras aproveitando a nova condição. A curva ascendente nos valores importados reflete uma demanda reprimida ou uma nova oportunidade de consumo que se abriu com a isenção fiscal, impactando diretamente o balanço comercial e a produção nacional.

Impacto direto na concorrência do varejo brasileiro

O relatório do Citi ressalta que o aumento das importações, especialmente de plataformas estrangeiras como a Shein, cria uma pressão significativa sobre as redes nacionais de vestuário. A principal preocupação reside na intensificação da concorrência por preços, uma vez que as empresas internacionais podem operar com vantagens tributárias que as varejistas brasileiras não possuem. Este cenário já foi observado em momentos anteriores e tende a se repetir.

Empresas como Renner, C&A e Marisa são citadas no estudo do Citi como as mais expostas a essa crescente competição. Embora as ações dessas varejistas já incorporem um desconto relevante no mercado – com a Renner sendo negociada a cerca de oito vezes a relação entre o preço da ação e o lucro projetado para 2027, e a C&A a aproximadamente seis vezes o mesmo indicador –, o cenário de aumento das importações pode agravar a pressão sobre suas margens e resultados futuros.

O programa Remessa Conforme e seus objetivos

Lançado em 2023, o programa Remessa Conforme foi idealizado para organizar e formalizar a entrada de produtos importados no Brasil, especificamente aqueles com valor de até US$ 50. O objetivo é garantir que as plataformas de comércio eletrônico que aderem ao programa cumpram uma série de critérios e exigências para operar dentro dessa faixa de valor, assegurando maior controle fiscal e aduaneiro.

Apesar de sua finalidade de regulamentação, a recente alteração na tributação de produtos de baixo valor dentro do programa gerou um efeito colateral de grande impacto. Ao eliminar a taxa de 20%, o governo, ainda que buscando simplificar, inadvertidamente impulsionou um volume de importações que agora desafia a capacidade de competição do varejo local, forçando uma reavaliação das estratégias de mercado por parte das empresas nacionais.

Fonte: poder360.com.br

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